sábado, 22 de setembro de 2018

Semana Nacional de Trânsito



AADA participa de Feira Educativa de Trânsito em São José

Se ficar por dentro e seguir corretamente as leis de trânsito, estejamos na condição de pedestre ou motorista, é essencial para a nossa segurança, saber como se comporta o surdo ou se relacionar com ele é também primordial para termos uma cidade mais segura e inclusiva. Por esse motivo, a AADA estará presente na Feira Educativa de Trânsito, que será realizada neste domingo, a partir das 9h, no Parque Vicentina Aranha, no Jardim Esplanada, em São José dos Campos.

O evento integra a 20ª edição da Semana Nacional de Trânsito, promovida pela prefeitura de São José, cujo tema este ano é “Beber e Dirigir machuca” [necessariamente nesta ordem] e que prevê a realização de abordagens educativas em locais de grande movimento, palestras em universidades, blitze de fiscalização, seminário e esquetes pela cidade, até o próximo dia 25.

No stand da AADA haverá contação de histórias em Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), com o objetivo de divulgar a primeira língua da comunidade surda, que também utiliza carro, e levar o público ouvinte a refletir que é necessário ter maior acessibilidade no trânsito para maior segurança de pedestres, ciclistas e motoristas. 


Também haverá divulgação dos serviços da AADA, batismo de sinais do público da feira, cantinho para selfie e test drive de comunicação (interação com surdos). A entrada é franca.


domingo, 9 de setembro de 2018

Dia Internacional das Línguas de Sinais


Hand Talk: inteligência artificial em prol da inclusão

Aplicativo tem mais de 2 milhões de downloads e chega a realizar cerca de 12 milhões de traduções em LIBRAS por mês

Por Cristiane Lopes*

Os desafios para uma comunicação mais fluida entre pessoas ouvintes e surdas são variados. A primeira barreira muitas vezes começa dentro de casa, depois vão surgindo outras, na escola, no trabalho, na comunidade e por ai vai. O surdo, muitas vezes, se vê isolado, justamente porque não há esse conhecimento da língua de sinais, o que praticamente o impossibilita de se comunicar e exercer sua cidadania.

Mas muitas ações têm sido realizadas no sentido de transpor essas barreiras, desde o desenvolvimento e regulamentação de leis específicas que oficializam e promovam a língua de sinais ao desenvolvimento de aplicativos e inteligências artificiais, que podem ser acessados e alimentados a partir do celular, e promovem a tradução do que é dito ou escrito para língua de sinais. E é disso que vamos falar agora. 

Você conhece o Hugo?


O Hugo é o intérprete-tradutor de Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), do aplicativo Hand Talk, da startup homônima criada em 2012, pelo publicitário e idealizador Ronaldo Tenório (CEO) e seus sócios, Thadeu Luz e Carlos Wanderlan. O personagem animado chega a realizar 12 milhões de traduções por mês. O app está disponível nas lojas e já registra mais de 2 milhões de downloads. A expectativa é que esse número cresça exponencialmente com o lançamento do aplicativo em ASL (American Sing Language), nos Estados Unidos a partir do ano que vem.

Quem nos contou essa novidade foi o próprio Ronaldo Tenório, numa entrevista exclusiva, sobre o app Hand Talk que foi considerado o melhor aplicativo social do mundo, pela Organização das Nações Unidas (2013). Tenório também tem um currículo de cair o queixo. Publicitário, é especializado em Comunicação Estratégica; foi eleito pelo jornal Folha de S. Paulo o mais promissor Empreendedor Social no Brasil (2014); um dos jovens mais promissores do Brasil pela Revista Forbes (2016); e um dos 35 jovens mais inovadores do mundo pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology), em 2015. E pensar que tudo começou com o gesto de olhar para o lado e se colocar no lugar do outro: empatia.


#BlogAADA: O que levou você a desenvolver o aplicativo Hand Talk? Caso de surdez na família? Amigos surdos? Geralmente é assim que acontece...

#RonaldoTenório: Eu fui pela contramão, simplesmente olhei para o lado e percebi que existia um problema entre surdos e ouvintes. Foi um projeto acadêmico, em que eu tinha que solucionar um problema de comunicação, unindo inovação e tecnologia. Pensei: já que é para fazer algo assim, que seja para ajudar as pessoas. Comecei a pesquisar problemas de comunicação que poderiam existir no Brasil e no mundo e entrei nesse universo das pessoas com deficiência. Vi que havia uma grande barreira de comunicação entre surdos e ouvintes e pensei: e se eu criar uma solução que possa traduzir esse conteúdo automaticamente? Isso foi em 2008. Eis que a ideia ficou por quatro anos guardada, depois eu resolvi inscrever em um desafio de start ups junto com mais dois colegas, o Thadeu Luz e o Carlos Wanderlan, que hoje são meus sócios, e aí deu no que deu.

#BlogAADA: O Hand Talk e você também tem vários prêmios e títulos no Brasil e exterior. O que você considera o grande diferencial desse projeto?

#RonaldoTenório: Eu acho que o grande fator decisivo para criar um negócio nesse sentido foi praticar a empatia, olhar para o lado e perceber que havia um problema que não era meu somente, mas principalmente de outras pessoas, e ao mesmo tempo de todos, como sociedade, de ter um ambiente mais inclusivo.

#BlogAADA: Recentemente a Hand Talk promoveu um evento sobre acessibilidade na internet, o Link, como você avalia o interesse e o engajamento das empresas nesta questão?

#RonaldoTenório: Acho que já foi muito pior. A acessibilidade está sendo muito discutida hoje. Aqui no Brasil, a gente tem uma das leis mais severas e completas sobre acessibilidade. Depois da Lei Brasileira de Inclusão, que entrou em vigor em 2016, eu acho que há um movimento maior das próprias empresas no sentido de praticarem isso como cultura delas, de serem mais diversas e inclusivas. É claro que ainda estamos muito distante de uma realidade legal, mas avançamos muito e a tendência é melhorar cada vez mais esse cenário.

#BlogAADA: E de que forma a Hand Talk se apresenta como facilitadora dessa realidade mais diversa e inclusiva?

#RonaldoTenório: Temos o app que é gratuito, está disponível nas lojas e já tem mais de 2 milhões de downloads - o usuário grava um texto ou áudio e obtém a tradução. Ele pode usar de qualquer lugar, seja pessoa física ou jurídica, para a situação que achar mais conveniente. Temos também um plugin para o site de empresas e organizações. Elas colocam esses plugins dentro de seus sites e torna aquele ambiente acessível. Oferecemos suporte e a empresa faz uma assinatura anual para que a ferramenta continue funcionando. Em nosso blog, damos algumas dicas de como implementar a acessibilidade nas empresas, para que as pessoas consumam cada vez mais esse conteúdo e eduquem cada vez mais as organizações. [handtalk.me/download]


#BlogAADA: Também no Link você anunciou a aquisição da ProDeaf [aplicativo de tradução para LIBRAS] e que o Hugo passará a traduzir em plataforma internacional, conta um pouco para a gente?

#RonaldoTenório: Este ano, nós adquirimos a ProDeaf, que é uma empresa similar a nossa, e recebemos investimento para podermos fazer a Hand Talk crescer mais aqui no Brasil - fechar mais negócios, tornar mais sites acessíveis, fazer o app ser mais baixado. A princípio vamos manter as duas marcas. O nosso grande próximo passo é lançar o Hand Talk em ASL (American Sing Language) nos EUA no começo do ano que vem.

#BlogAADA: As línguas são todas vivas. Como vocês mantêm o repertório do Hugo atual?

#RonaldoTenório: É um trabalho bem difícil, é diário. A língua é viva mesmo e diariamente temos novas solicitações. Quem nos ajuda muito a melhorar o vocabulário do Hugo é quem reporta lá as traduções feitas, se está ok se não está, se está precisando de sinal, e manda sugestões. Então, verificamos quais sinais o Hugo precisa aprender. Ele vai ficando mais inteligente à medida em que as pessoas vão utilizando o aplicativo – a gente utiliza inteligência artificial neste trabalho de tradução.

#BlogAADA: Eu só consigo obter a tradução em LIBRAS de uma palavra ou frase se eu estiver conectada à internet?

#RonaldoTenório: Na verdade, todas as traduções que você fizer usando a internet vão para o histórico e poderão ser acessadas offline, funcionando com os sinais devidos. Hoje, a gente precisa da internet para fazer as traduções porque todo o sistema de tradução automática precisa de máquinas e serviços para funcionar. Então, para que o Hugo fique mais inteligente a cada dia, essa base de dados tem que estar sempre atualizada nos nossos servidores. E é por isso que a gente precisa das traduções funcionando online. A gente tem esse grande recurso que é o histórico: é possível cadastrar frases que você queira no seu histórico e, quando precisar usar o offline, Hugo te dará a sinalização correta delas.

#BlogAADA: Alguns sinais estão totalmente ligados ao contexto. Por exemplo, em relação à palavra banco...

#RonaldoTenório: Casos como este, de ambiguidade [banco, de sentar, e banco, instituição financeira], o Hugo precisa de vários exemplos. Por isso é importante a avaliação: tem uma estrelinha no canto superior direito do aplicativo, que o usuário pode clicar e avaliar aquela tradução. Se ele identificar que aquela tradução não está com o contexto ideal, a gente percebe e vai corrigindo isso. Quanto mais pessoas reportarem, mais compreendemos pelo contexto qual deveria ser colocado lá. Uma vez estando errado não significa que estará errado para sempre. Essa é a vantagem de se trabalhar com tecnologia, porque as pessoas ajudam ao reportar e avaliar. Com isso, aplicamos mais situações para que o Hugo possa aprender e apresentar o melhor sinal a ser utilizado.

#BlogAADA: Como vocês interagem com os usuários do Hand Talk?
#RonaldoTenório: A gente tem dois canais específicos: um é o de avaliar, no canto superior direito do app, e o outro, em “sugestões” [no menu]. Várias ações já foram implementadas na plataforma, como por exemplo, deixar mais clara a função de velocidade da animação, hoje no canto inferior esquerdo; as pessoas também queriam mais informações para aprendizado da língua, então criamos o #HugoEnsina, que também é acessado pelo menu, em que ele ensina sinais de grupos específicos, a cada mês. Inclusive a ASL é uma das sugestões mais fortes que recebemos e é um dos grandes lançamentos que a gente vai fazer no ano que vem.

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Você sabia?

O Dia Internacional das Línguas de Sinais foi instituído em 2011 pela Federação Mundial de Surdos, a partir de uma iniciativa da Associação de Surdos da Suécia. O ato foi uma resposta ao Congresso de Milão, ocorrido no início do século 19, também no mês de setembro, e que na ocasião proibia o uso das línguas de sinais para alfabetização e educação de surdos, impondo a oralização para este fim.
Hoje em dia, felizmente, o próprio surdo, a família e profissionais de diversas áreas que o assistem podem escolher, de acordo com as características de cada pessoa, a melhor forma de se comunicar, compreender a realidade e ser compreendido também. Há os surdos oralizados, os sinalizados (usuários de línguas de sinais), aqueles que fazem leitura labial, mas é inegável a importância da língua de sinais como sua língua materna, a partir da qual eles podem se expressar naturalmente.
No Brasil, o Dia Nacional da Língua Brasileira de Sinais é comemorado no dia 24 de abril, sendo reconhecida como meio legal de comunicação e expressão da comunidade surda.

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*Cristiane Lopes é jornalista, mãe do Miguel e voluntária na AADA.