segunda-feira, 24 de julho de 2017

Queremos uma melhor qualidade na educação para surdos


A Dra. Marianne Rossi Stumpf conversando com a equipe do BlogAADA

Marianne Rossi Stumpf nasceu surda no seio de uma família de ouvintes. Sua mãe, que foi professora de deficientes auditivos, sabia que era muito importante que a criança aprendesse a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) e acompanhou desde cedo a educação da filha. Antes dos oito anos a Marianne já tinha conhecimentos da língua, mas foi a partir dessa idade que começou a estudá-la mais a fundo e, com o decorrer do tempo, também aprendeu português.

Acredita que graças à ajuda da sua mãe, e também por muito lutar, conseguiu se formar em Tecnologia da Informática na Universidade Luterana do Brasil (2000) e fazer doutorado em Informática na Educação, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2005).

“Às vezes as famílias têm o conceito de que o surdo tem que fazer implante coclear e usar aparelho para poder ouvir e falar, então nesses casos a própria família não o aceita e não reconhece a LIBRAS como identidade dele”, enfatizou à equipe do BlogAADA, momento antes de apresentar com a ajuda de duas intérpretes a palestra Políticas Linguísticas: inclusão dos surdos na Universidade, no 3º Congresso Nacional sobre Surdez.

INCLUSÃO NÃO É SÓ COLOCAR INTÉRPRETES NAS ESCOLAS
Durante sua apresentação a professora Stumpf refletiu sobre varias questões que dificultam o acesso dos surdos às universidades públicas. Para ela, embora nos últimos anos houve avanços no plano jurídico que não existiam na época em que se formou, ainda existem inúmeras dificuldades que atrapalham o ingresso nas faculdades e que também interferem na qualidade do ensino nos diferentes níveis.

Uma dessas problemáticas é a ausência de cursos de graduação em Letras LIBRAS na maioria das universidades federais do país, embora a disponibilização deles esteja prevista pelo decreto Lei 5.626, sancionado em dezembro de 2005.

Segundo a medida, “a formação de docentes para o ensino de Libras nas séries finais do ensino fundamental, no ensino médio e na educação superior deve ser realizada em nível superior, em curso de graduação de licenciatura plena em Letras: Libras ou em Letras: Libras/Língua Portuguesa como segunda língua”. No entanto, na pratica muitos dos professores que lecionam aulas de LIBRAS na educação básica não têm graduação na modalidade.

Nesse sentido a palestrante acrescentou: o governo acha que inclusão é só colocar um interprete, mas não é bem assim. Não podemos nos contentar só com intérpretes, temos que ir além.

“Em 2006 foi implementado o curso de Letras Libras na Universidade Federal de Santa Catarina. Foi muito importante, eu me sinto muito orgulhosa porque isso aconteceu. Foram criados outros em alguns estados, mas são poucos. Aqui em São Paulo,  por exemplo, não tem o curso de Letras LIBRAS só tem a formação de interpretes”.

A escola bilíngue é outra das dificuldades salientadas por Strumpf. Nesse sentido referiu-se ao Plano Nacional de Educação 2014-2024, o qual prevê, entre outras disposições, o asseguramento da educação bilíngue para crianças surdas. “Realmente é um plano muito importante, mas o governo e o Ministério de Educação simplesmente guardaram esse documento e o ignoraram. É preciso exigir que esse plano realmente entre em vigor e não caia no esquecimento como está acontecendo até hoje”.

“Sabemos que existe uma grande discussão no tocante à linguística, no Brasil o Português é obrigatório, para fazer documentos, na justiça, tudo é em Português, a LIBRAS acaba ficando como algo inferior, mas também existem muitos outros idiomas no país que acabam sofrendo. Então é importante nós olharmos também para as línguas menores. O Português não pode ser um fator de exclusão”.

Outro dos pontos mencionados pela professora foi a necessidade de disponibilizar as provas, tanto de vestibulares como de concursos, em formatos acessíveis para os surdos, ou seja, em LIBRAS, embora ela saiba que são muito trabalhosas de realizar.

Durante muitos anos esse tem sido uma reclamação da comunidade surda, pois os estudantes têm dificuldade para se preparar e resolver provas como o ENEM, devido a que os exames estão em português e a leitura para pessoas que não têm uma boa formação nessa língua se dificulta. Em anos anteriores vários estudantes também declararam que a tradução feita pelos intérpretes não era suficiente.

Para o ENEM 2017 os estudantes surdos vão ter pela primeira vez acesso a vídeo com as questões traduzidas na LIBRAS.  A professora Stumpf aplaudiu a iniciativa e salientou que está torcendo para que o experimento tenha sucesso.

Quase no final da apresentação, a palestrante reconheceu que nos últimos anos houve um ganho em algumas questões da interpretação/tradução, mas que essas “conquistas” não são suficientes. Não se pode descansar, é preciso lutar cada dia por uma melhor qualidade na educação para os surdos. 


terça-feira, 18 de julho de 2017

São José é palco do 3º Congresso Nacional sobre Surdez

O Parque Tecnológico de São José dos Campos, localizado na zona leste da cidade, receberá entre os dias 20 e 22 deste mês o 3º Congresso Nacional sobre Surdez. O evento é realizado pela Associação de Apoio ao Deficiente Auditivo, entidade que é referência em atendimento ao surdo em todo o Vale do Paraíba, e tem o apoio da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
A proposta do congresso é reunir profissionais renomados com o objetivo de abordar avanços, paradigmas e novos conceitos relacionados à surdez, com enfoque na Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), nos seguintes aspectos: cognição, intervenções médicas, inclusão escolar e cidadania.
O evento será aberto na próxima sexta-feira, a partir das 8h, com o credenciamento; às 10h tem início a programação das palestras, com a professora Dra. Edeilce Buzar, que falará sobre “Linguagem, surdez e cognição”, seguida pelo também professor Dr. Vinícius Nascimento, com o tema “A importância da LIBRAS como língua”.


O uso de tecnologia, como a do implante coclear, também conhecido como “ouvido biônico”, e também a opção pela língua de sinais, como principal forma de comunicação, serão apresentados sob as perspectivas da pessoa surda e de seus familiares, que contarão aos presentes sobre suas escolhas e experiências. A palestra “Dificuldades encontradas na escola e na vida do surdo oralizado” vai mostrar aos participantes os desafios de quem tem deficiência auditiva, mas consegue se expressar verbalmente. É o caso do professor surdo Rauf Di Carli.
Outro destaque do Congresso Nacional de Surdez é a apresentação do projeto Escola Bilíngue – Libras-Língua Portuguesa, desenvolvido pela Escola Municipal de Ensino Fundamental Maria Aparecida dos Santos Ronconi, de São José dos Campos, que também tem crianças e jovens surdos implantados entre seus alunos.
O evento ainda reserva temas como a inclusão dos surdos nas universidades, cultura e literatura surda, Lei Brasileira de Inclusão e língua de sinais nas artes cênicas.

Serviços:
Inscrições e programação completa do 3º Congresso Nacional sobre Surdez, www.congressolibras.com.br. Apoio: Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Local: Parque Tecnológico - avenida Cesare Mansueto Giulio Lattes, 1201, Eugênio de Melo, São José dos Campos.